Uso de Sistemas Geográficos de Informação na Medicina Veterinária

Fácil acesso a computadores e tecnologia avançada!
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Veterinária

27/04/2014

O esforço para atingir uma visão global de um evento, coloca para o investigador a necessidade de utilizar não só sua capacidade de observação e reflexão, como também investir na busca de inovações que facilitem o conhecimento da realidade. Além do referencial teórico, é necessário o emprego de tecnologias e metodologias adequadas para a explicação da distribuição territorial da doença (MEDRONHO, 1995; BARCELLOS; BASTOS, 1996).


O recente desenvolvimento de tecnologias de mapeamento digital e análise espacial genericamente denominadas Sistemas Geográficos de Informação (SGIs), abriu novas possibilidades de compreensão do processo saúde-doença nas populações. Tais técnicas têm grande potencial para aumentar a compreensão das ligações entre processos de doença e variáveis espaciais explicativas (GRAHAM et al., 2004) possibilitando, por exemplo, analisar a geotopologia de um ambiente transformando dados em informação destinada ao apoio à decisão. Estas decisões devem ser ancoradas em sólido conhecimento teórico e conceitual, por parte do pesquisador, quanto ao seu campo de investigação (XAVIER-DA-SILVA; Zaidan, 2004).


Vistos como modelos digitais do ambiente, os SGIs permitem a avaliação de situações ambientais com uma precisão adequada e com economia apreciável do esforço humano na coleta, reorganização dos dados e análise destes, respeitando e integrando algumas características fundamentais dos dados ambientais, tais como: serem extremamente numerosos; serem de tipos variados e oriundos de muitas fontes; serem sujeitos a classificações que podem ser alteradas e terem graus variados de complexidade e aplicabilidade. Esta condição, para ser atingida, necessita do trabalho multi e inter disciplinar (XAVIER-DA-SILVA, 1982; 2001) e vêm sendo cada vez mais utilizados na área da saúde, uma vez que otimiza a análise da situação de saúde e das condições de vida da população e do ambiente, possibilitando trabalhar com informações de diferentes origens e formatos.


O acesso a computadores facilitado e o aumento na disponibilidade de dados, são fatores que estão impulsionando a incorporação destes sistemas na saúde pública para mapeamento de doenças, estudos ecológicos, detecção de aglomerados, processos de difusão e estudo de trajetória entre localidades (SANTOS; BARCELLOS, 2006).
Em medicina veterinária esta metodologia vem sendo aplicada e com sucesso a alguns anos embora poucos trabalhos sejam executados no país.

Exemplificando a aplicação da ferramenta, Lessard et al. (1990) utilizaram um SGI como auxiliar na análise de variáveis climáticas, cobertura vegetal, hospedeiros intermediários e definitivos, para estudar o comportamento epidemiológico de Theileria parva. Sanson et al. (1991) na Nova Zelândia, utilizaram a tecnologia dos SGIs no estudo da Febre Aftosa. Na Itália, Cringoli (2001) e Rinaldi et al. (2005) utilizaram um SGI como ferramenta para estudar áreas de risco e prevalência da filariose em cães e para auxiliar na análise de fatores influentes na distribuição de Neospora caninum, respectivamente.


No Brasil estes trabalhos tem sido divulgados na forma de dissertações, teses e em capítulos de livros (SOUZA et al., 2011) e artigos, como em Silva et al. (2001), que avaliaram a distribuição espacial e temporal da raiva bovina com a finalidade de se repensar as ações de vigilância e controle da doença. Enquanto, Ferreira (2006) mapeou áreas favoráveis ao crescimento de populações de Amblyomma cajennense e identificou áreas de risco para infestação humana pelo carrapato no município de Piracicaba, SP.


Já Fonseca et al. (2005) e Souza et al. (2007; 2010a), também fez uso do geoprocessamento para demonstrar a distribuição espaço-temporal da favorabilidade ao desenvolvimento do carrapato Rhipicephalus (Boophilus) microplus e da dermatobiose em bovinos, respectivamente, para o município de Seropédica, RJ. Assim como, Souza et al. (2010b; 2012) analisaram com o uso do SGI a distribuição espaço-temporal de áreas potenciais a ocorrência simultânea de dermatobiose e carrapato Rhipicephalus (Boophilus) microplus em bovinos em diferentes áreas no Estado do Rio de Janeiro, demonstrando a versatilidade da técnica. Portanto, tem-se uma ótima possibilidade de se estudar eventos com diferentes variáveis envolvidas e obter resultados satisfatórios que venham a contribuir para diversas necessidades na área da pesquisa e saúde.
REFERÊNCIAS

BARCELLOS, C.; BASTOS, F. I. Geoprocessamento, ambiente e saúde: uma união possível? Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 12, n. 3, p. 389-397, 1996.

CRINGOLI, G. et al. A prevalence survey and risk analysis of filariosis in dogs from the Mt. Vesuvius area of southern Italy. Veterinary Parasitology, v. 102, n. 3, p. 243-252, 2001.

FERREIRA, P. M. Uso do geoprocessamento na identificação de áreas de risco para infestação humana pelo Amblyomma cajennense (Acari: Ixodidae) no município de Piracicaba, SP. 2006. 94 f. Tese (Doutorado), Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006.

FONSECA, A. H. et al. Distribuição espaço-temporal de Boophilus microplus (Acari: Ixodidae), analisada por geoprocessamento, no município de Seropédica, estado do Rio de Janeiro, Brasil. Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária, v. 14, n. 4, p. 167-172, 2005.

Graham, A. J.; Atkinson, P. M.; Danson, F. M. Spatial analysis for epidemiology. Acta Tropica, v. 91, n. 3, p. 219-225, 2004.

LESSARD, P. et al. Geographical information systems for studying the epidemiology of cattle diseases caused by Theileria parva. Veterinary Record, v. 126, n. 11, p. 255-262, 1990.

MEDRONHO, R. A. Geoprocessamento e saúde: uma nova abordagem do espaço no processo saúde doença. Rio de Janeiro, FIOCRUZ/CICT/NECT, 1995, 135p.

Rinaldi, L. et al. Neospora caninum in pastured cattle: determination of climatic, environmental, farm management and individual animal risk factors using remote sensing and geographical information systems. Veterinary Parasitology, v. 128, n. 3-4, p. 219-230, 2005.

SANSON, R. L.; LIBERONA, H.; MORRIS, R. S. The use of geographical information system in the mangement of a toot-and-mounth disease epidemic. Preventive Veterinary Medicine, v. 11, n. 3-4, p. 309-313, 1991.

SANTOS, S. M.; BARCELLOS, C., organizadores. Abordagens espaciais na saúde pública il. – (Série B. Textos Básicos de Saúde) (Série Capacitação e atualização em Geoprocessamento em Saúde; 1) / Ministério da Saúde, Fundação Oswaldo Cruz. Brasília: Ministério da Saúde, 2006. 136 p.
Silva, J. A. et al. Distribuição temporal e espacial da raiva bovina em Minas Gerais, 1976 a 1997. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, v. 53, n. 3, p. 1-15, 2001.

SOUZA F. S. et al. Geoprocessamento aplicado a observação da sazonalidade das larvas da mosca Dermatobia hominis, no município de Seropédica – RJ, Brasil. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, v. 59, n. 4, p. 889-894, 2007.

SOUZA, F. S.; BOTELHO, M. C. S. N.; LISBÔA, R. S. Caracterização de associação entre a sazonalidade de larvas de Dermatobia hominis em bovinos, dípteros potenciais vetores e dados meteorológicos de três diferentes locais no Rio de janeiro. Revista Brasileira de Ciência Veterinária (Impresso), v. 17, p. 111-116, 2010a.

SOUZA, F. S.; BOTELHO, M. C. S. N.; LISBÔA, R. S. Aplicação do geoprocessamento na análise da distribuição espaço-temporal de áreas potenciais a ocorrência simultânea de dermatobiose e carrapato Rhipicephalus microplus em bovinos no município de Seropédica-RJ, Brasil. Agropecuária Técnica (UFPB), v. 31, p. 57-62, 2010b.

SOUZA, F. S.; FONSECA, A. H., SILVA, J. X., PEREIRA, M. J. S. Geoprocessamento aplicado a melhoria de qualidade da atividade pecuária no município de Seropédica-RJ. In: Geoprocessamento e Meio Ambiente.1 ed.Rio de Janeiro : Editora Bertrand Brasil, 2011, p. 147-166.

SOUZA, F. S.; BOTELHO, M. C. S. N.; LISBÔA, R. S. Aplicação do geoprocessamento na análise da distribuição espaço-temporal de áreas potenciais a ocorrência simultânea de dermatobiose e carrapato Rhipicephalus microplus em bovinos no município de Seropédica-RJ, Brasil. Arquivos do Instituto Biológico (Online), v. 79, p. 17-23, 2012.

XAVIER-DA-SILVA, J. A digital model of the environment: na effective approach to areal analysis. In: Latin American Conference, International Geographic Union, 1982, Rio de Janeiro. Annals... Rio de Janeiro: IGU, v. 1, p. 17-22, 1982.

XAVIER-DA-SILVA, J. Geoprocessamento para análise ambiental. Rio de Janeiro, 2001. 228 p.

XAVIER-DA-SILVA, J.; ZAIDAN, R. T., organizadores. Geoprocessamento e Análise ambiental. Aplicações. Rio de Janeiro: Bertrand, 2004. 368 p.

Esta apresentação reflete a opinião pessoal do autor sobre o tema, podendo não refletir a posição oficial do Portal Educação.


Fábio Silva de Souza

por Fábio Silva de Souza

Possui graduação em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) (2003), mestrado e doutorado em Ciências, Área de Concentração - Sanidade Animal, pelo Curso de Pós-Graduação em Ciências Veterinárias - UFRRJ (2008). Concluiu em 2010 seu Pós-Doutorado pela FAPERJ. Atualmente é docente do Centro Universitário do Norte e da Escola Superior Batista do Amazonas.

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